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Entre o scroll e a alma: Decifrando A Geração Z e o futuro do trabalho


Tudo bem com você? A Paz 🙏🏼


A tela pisca, o feed rola, mas a cadeira ao lado parece vazia. Por que a geração mais conectada da história tem tanta dificuldade em se conectar com o trabalho de verdade?


Já se pegou pensando nisso? Você olha para o jovem talento à sua frente – fluente em memes, mestre em criar um vídeo viral no TikTok em cinco minutos – e, no instante seguinte, o vê paralisado diante de uma tarefa que exige um raciocínio lógico simples numa planilha, ou seguir um mapa no GPS sem o "recalcular rota" automático. Os relatórios podem até estar "ok", a entrega mínima acontece, mas falta aquela centelha, aquela fome de ir além, de "pegar junto" quando o desafio aperta. É a era da performance paradoxal: muita habilidade para o efêmero digital, pouca para a construção resiliente do dia a dia.

Eu converso com líderes angustiados o tempo todo. O "Armando", CEO de uma promissora empresa de SAAS, me procurou com essa exata dor latejando: 


"Márcio, eu não entendo. Contratamos jovens brilhantes, com potencial enorme, mas parece que vêm com um manual de instruções diferente do meu. São ágeis para aprender o superficial de uma nova ferramenta, mas a profundidade, a responsabilidade pela entrega de ponta a ponta, a capacidade de buscar uma fonte primária em vez de engolir a primeira resposta da IA como verdade absoluta... isso parece estar em outro idioma. Eles esperam que o trabalho seja um feed infinito de novidades interessantes, e quando a rotina exige disciplina e foco, a energia some. Estamos com uma escassez brutal, não de gente, mas de gente pronta para a arena real dos negócios."

O desabafo do Armando não é isolado. É o eco de um mercado que vê um gap crescente entre o potencial anunciado e a performance entregue, especialmente com a Geração Z, nativa de um mundo de gratificações instantâneas e informações fragmentadas. E não, a culpa não é "deles". A culpa, se é que podemos falar em culpa, é de um descompasso brutal entre a velocidade com que o mundo digital moldou seus cérebros e a lentidão com que nós, líderes e organizações, temos adaptado nossas formas de desenvolver e engajar.


Onde aprendi isso? Como sei que funciona?

Minha jornada de quase duas décadas me jogou em trincheiras onde a teoria encontrava a dura realidade. Vi empresas investirem fortunas em "plataformas de engajamento" que viraram desertos digitais, simplesmente porque não tocavam na questão fundamental: o que realmente move um ser humano – de qualquer geração – a dar o seu melhor? A resposta não está em mais um app ou em uma sala de descompressão com puffs coloridos. Está na compreensão profunda de como o cérebro e o comportamento humano funcionam, especialmente sob as pressões e os estímulos (ou a falta deles) do ambiente de trabalho moderno.

A neurociência, por exemplo, nos mostra de forma cabal que a dopamina, neurotransmissor do prazer e da motivação, é liberada não apenas por recompensas, mas pela antecipação delas e pela sensação de progresso em direção a um objetivo significativo (veja os trabalhos de Robert Sapolsky sobre o comportamento em primatas e humanos). Se o trabalho é visto como uma série de tarefas desconexas, sem um "porquê" claro, o cérebro economiza energia. Entra em modo de "baixa performance". A geração do scroll infinito, acostumada a pular de estímulo em estímulo, sente isso de forma ainda mais aguda.

Da mesma forma, a pesquisa de Amy Edmondson sobre segurança psicológica é crucial aqui. A aparente "fragilidade" ou a falta de proatividade muitas vezes não é uma falha de caráter, mas um sintoma de ambientes onde o medo de errar, de perguntar o "óbvio" ou de ser julgado é tão palpável que o cérebro racional (nosso córtex pré-frontal, responsável pelo planejamento e pensamento crítico) é sequestrado pela amígdala, o centro do alarme. Como esperar que alguém assuma responsabilidade ou pense criticamente se está em constante modo de autodefesa?

O que fazer, então, para transformar esse cenário? É preciso ir além da superfície e trabalhar naquilo que verdadeiramente molda a cultura e o desempenho: o Desenvolvimento Humano e Organizacional (DHO), entendido aqui não como um departamento burocrático, mas como a prática deliberada de cultivar a humanidade, o pensamento crítico e a responsabilidade em cada pessoa da organização.



Três chaves para destravar o potencial da sua equipe (e da Geração Z):


Primeiro, reabilite a capacidade de atenção e aprofundamento (da superficialidade do feed à substância do aprendizado real):


  • A ciência por trás: O aprendizado significativo, aquele que transforma comportamento e gera insights, não acontece por osmose digital. Ele requer foco, repetição e a construção ativa de conhecimento. O bombardeio de informações curtas e fragmentadas do mundo digital pode dificultar o desenvolvimento da "atenção sustentada", crucial para tarefas complexas.

  • Como sei que funciona? Em um projeto com uma equipe de jovens analistas que confiavam cegamente nas primeiras respostas de ferramentas de IA, implementamos "desafios de checagem de fatos". A tarefa era simples: pegar uma resposta da IA sobre um tema complexo do negócio e encontrar, em fontes primárias (relatórios de mercado, artigos científicos, entrevistas com especialistas internos), três evidências que a corroborassem e uma que a desafiasse. No começo, foi um suplício. "Mas dá muito trabalho!", diziam. Aos poucos, com mentoria, eles começaram a sentir o prazer da descoberta, a confiança de ter uma opinião embasada. Passamos a valorizar não quem respondia mais rápido, mas quem trazia a análise mais profunda. Isso não é sobre demonizar a IA, mas sobre usá-la como ponto de partida para o pensamento crítico, não como ponto final.



Segundo, construa o "músculo" da responsabilidade (do "alguém vai fazer" para o "eu me importo, eu resolvo"):


  • A ciência por trás: A Teoria da Autodeterminação (Deci & Ryan) nos ensina que a motivação intrínseca floresce quando três necessidades psicológicas básicas são atendidas: autonomia (a sensação de controle sobre as próprias ações), competência (sentir-se capaz e eficaz) e pertencimento (sentir-se conectado e valorizado pelo grupo). A falta de responsabilidade, muitas vezes, é um grito silencioso de que uma ou mais dessas necessidades não estão sendo nutridas.

  • Como sei que funciona? O Armando, aquele CEO que mencionei, estava desesperado com a falta de "ownership" dos projetos. A solução não foi mais cobrança, mas a redefinição de "pequenos reinados de responsabilidade". Cada projeto, mesmo os menores, passou a ter um "guardião" claro, com autonomia para tomar certas decisões e com a responsabilidade de reportar os progressos e os obstáculos de forma transparente. Crucialmente, os "fracassos" desses pequenos projetos eram tratados como "protótipos que não funcionaram", e a discussão era sobre o que aprendemos e como faremos diferente. Demos a eles a chance de sentir o peso e a glória da responsabilidade, e muitos, para surpresa do próprio Armando, começaram a se destacar.



Terceiro, seja o líder-artesão (modele a profundidade, a ética e a resiliência que você espera ver): 


  • A ciência por trás: Os neurônios-espelho, descobertos por Giacomo Rizzolatti, explicam como aprendemos e somos influenciados pela observação do comportamento alheio. Seus líderes são seus principais modelos. Se você, líder, demonstra curiosidade intelectual genuína, se busca fontes diversas, se admite quando não sabe e se mostra disposto a aprender, se enfrenta a adversidade com integridade em vez de buscar atalhos, você está, silenciosamente, ensinando mais do que qualquer manual ou treinamento.

  • Como sei que funciona? Já vi culturas inteiras mudarem não por um programa de DHO, mas porque um líder decidiu, ele mesmo, mudar sua postura. Em vez de apenas delegar a leitura de um relatório complexo, ele sentava com a equipe e dizia: "Pessoal, isso aqui é denso. Vamos tentar decifrar juntos? Quem encontrou algo que não entendeu? Quem achou uma conexão que eu não vi?". Essa vulnerabilidade e disposição para o aprendizado compartilhado é magnética. Ela ensina, pelo exemplo, que a profundidade vale a pena e que ninguém precisa ter todas as respostas o tempo todo.


Meus amigos, a transformação cultural e o desenvolvimento da sua equipe, especialmente da Geração Z, não acontecerão com um passe de mágica ou com a importação do último modismo de gestão. Acontecerão quando você, líder, decidir olhar para além dos sintomas e tratar as causas profundas da desconexão e da apatia. Quando você entender que seu papel não é apenas gerenciar tarefas, mas cultivar seres humanos em toda a sua complexidade, com suas fragilidades e seu potencial infinito.


Esta jornada, de resgatar a alma do trabalho e despertar o gigante que dorme em cada colaborador, é a essência do que exploro em "Desperte Seu Time". Ali, condenso as lições mais duras e as vitórias mais doces de uma vida dedicada a entender e transformar o fator humano nas organizações.



Lembre-se: o futuro do seu negócio não está na próxima tecnologia disruptiva, mas na sua capacidade de cultivar a humanidade disruptiva que já reside em sua equipe.


A gente se vê por aí.


Rumo ao TOPO 🚀 

Marcio Almeida[www.marcioalmeida.co]



 
 
 

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